Avançando na agenda de finanças: Mobilizando Investimentos Verdes em Estados Brasileiros

Podem os planos climáticos e de transição dos governos subnacionais impulsionar a implementação na prática? A resposta é sim. No Brasil e no mundo, estados, regiões e cidades desempenham um papel chave na redução de emissões e na transição para uma economia verde. 

Avançando na agenda de finanças: Mobilizando Investimentos Verdes em Estados Brasileiros  

Luis Zamarioli e Leonardo Lima 

 

Podem os planos climáticos e de transição dos governos subnacionais impulsionar a implementação na prática? A resposta é sim. No Brasil e no mundo, estados, regiões e cidades desempenham um papel chave na redução de emissões e na transição para uma economia verde. Suas ações são essenciais para alcançar os compromissos nacionais de uma forma que reflita as realidades locais e os interesses dos membros das comunidades. Mas onde está o desafio? A resposta: necessita-se financiamento suficiente, além de capacidade para acessá-lo. E é aí que entra o projeto Mobilizando Investimentos Verdes em Estados Brasileiros. 

O projeto explora métodos inovadores para traduzir políticas e planos ambiciosos dos estados em projetos fortes e bancáveis capazes de atrair investimentos. Com a COP30 se aproximando, o projeto assegura que os estados disponham da capacidade técnica e das ferramentas necessárias para estruturar carteiras de projetos viáveis, apresentá-las a investidores e articular parcerias estratégicas que viabilizem sua transição climática. 

  

Mobilising Green Investment in Brazilian States
Luis Zamarioli, Project Manager | Fotografia: Tarciso Augusto / SEMAS

De Baku a Belém 

 

A COP29 falhou em fornecer o financiamento necessário para enfrentar a crise climática, avançar em suas metas e superar lacunas de implementação. Isso torna projetos como Mobilizando Investimentos Verdes em Estados Brasileiros ainda mais essenciais, pois eles auxiliam os estados na diversificação de fontes de capital e na progressão de planos verdes a investimentos verdes.   

Em uma carta na qual expôs sua visão para a tão aguardada cúpula climática do Brasil, o embaixador André Correa do Lago, Presidente designado da COP30, convocou a conferência a ser a "COP da ação e implementação", em um verdadeiro mutirão global. Originária do Tupi, a palavra mutirão significa esforço coletivo – neste caso, contra as mudanças climáticas. Com o mesmo vigor, o projeto Mobilizando Investimentos Verdes em Estados Brasileiros une-se a esse mutirão, apoiando os estados em sua descarbonização e resiliência em tempo de evitar as piores catástrofes. 

No Brasil, o desafio é duplo: identificar oportunidades de financiamento climático e estar preparado para aproveitá-las. Muitos projetos atuais carecem de requisitos mínimos e correm o risco de não serem atrativos para investidores em potencial. É nesse contexto que o projeto Mobilizando Investimentos Verdes em Estados Brasileiros atua – inicialmente com um trabalho aprofundado junto a três estados parceiros, além da criação de uma comunidade de prática entre dez outros estados. 

Segundo Jebi Rahman, Chefe de Implementação Global do Climate Group, "a transição para uma economia resiliente e de baixo carbono só é possível quando os governos subnacionais recebem financiamento adequado e têm os meios para acessá-lo. O governo federal do Brasil está demonstrando compromisso por meio de iniciativas como a Plataforma Brasileira de Investimentos (BIP). No entanto, os governos subnacionais, que necessitam urgentemente de financiamento climático, desempenham um papel central na condução de transições que reflitam os interesses das comunidades e precisam ser incluídos nesses processos. Este projeto está orientando os estados em direção a uma economia verde. Esperamos que isso inspire outros estados, regiões e cidades de nações em desenvolvimento a aproveitarem seu poder de investimento e alavancarem a atração de investimentos verdes." 

Mobilising Green Investment in Brazilian States
Fotografia: Tarciso Augusto / SEMAS

Prontidão para atrair investimentos  

Lançado em 2024, o projeto tem a duração de dois anos e é implementado pelo Climate Group e pela ERM, com financiamento do UK PACT no Brasil (Partnering for Accelerated Climate Transitions). A iniciativa surgiu a partir de interações anteriores com estados brasileiros dentro da Under2 Coalition, como o Projeto Trajetórias de Descarbonização

Centralmente, o projeto trabalha em parceria com três estados brasileiros – Mato Grosso, São Paulo e Pernambuco. O seu principal objetivo é estruturar um portfólio de projetos bancáveis. Ao longo do processo, o projeto criou Forças-Tarefa Financeiras e busca desenvolver a capacidade dos estados de comunicar suas necessidades e oportunidades de investimentos ao mercado e potenciais investidores.  

“Bancabilidade” é um conceito central. Significa que um projeto é capaz de gerar retornos financeiros, viabilizando a mobilização de diferentes tipos de capital enquanto maximiza impactos climáticos positivos. A capacidade de mobilizar capital de diversas fontes torna-se fundamental diante da necessidade urgente de descarbonizar e fortalecer a resiliência de toda a economia. 

Estados, regiões e cidades são peças-chave no grande quebra-cabeça da ação climática. Eles podem reduzir riscos financeiros e sociais ao engajar atores locais, além de desempenhar um papel estratégico na mobilização de diferentes fontes de financiamento para a transição ecológica. 

O projeto também lançou a Comunidade de Prática dos Estados durante o G20 Social no Rio de Janeiro. Essa comunidade de intercâmbio entre pares trabalhará com dez estados brasileiros ao longo de 2025, promovendo networking e aprendizado com especialistas do mercado financeiro, além da troca de experiências para mobilizar financiamento para as prioridades climáticas subnacionais. Os resultados serão compilados em uma publicação a ser lançada na COP30, em Belém. 

O projeto tem proporções bastante amplas. Os três estados parceiros – São Paulo, Mato Grosso e Pernambuco – possuem um PIB combinado de US$ 634 bilhões (superior ao de países como Dinamarca e África do Sul). Já o PIB total dos dez estados integrantes da Comunidade de Prática alcança US$ 1,16 trilhão, ultrapassando (e muito) o de potências europeias como Suíça e Bélgica. 

Segundo Felipe Nestrovsky, sócio-consultor da ERM, “um financiamento adequado é essencial para a transição para uma economia de baixo carbono de governos subnacionais. Ao orientar os estados rumo a uma economia verde, este projeto busca inspirar outras regiões e cidades em mercados emergentes a investir em iniciativas sustentáveis. Como um importante ator econômico global, os esforços do Brasil nessa área são particularmente relevantes e podem servir de exemplo para outros países." 

Mobilising Green Investment in Brazilian States
Leonardo Lima, Project Manager | Fotografia: Tarciso Augusto / SEMAS

O que o projeto alcançou até agora?   

Em menos de 12 meses, o projeto já apresenta um progresso notável: 

  1. Levantamento de informações: O projeto iniciou com um levantamento detalhado dos planos e prioridades climáticas dos estados, suas competências legais e financeiras, além de suas experiências com orçamentos e financiamento climático. Isso incluiu também uma avaliação aprofundada das fontes potenciais de financiamento.
  2. Capacitação personalizada: Após o levantamento inicial, o projeto focou no desenvolvimento de capacidades por meio de doze sessões de treinamento. Os temas abordados variaram desde a introdução às finanças sustentáveis até workshops para a estruturação de instrumentos financeiros específicos, e o desenvolvimento de projetos bancáveis.
  3. Preparação institucional: Esta fase visou a consolidação de forças-tarefa diversificadas e com foco na prontidão de longo-prazo de cada um dos três estados parceiros. Em Mato Grosso, por exemplo, uma resolução criou a Câmara Temática de Finanças Climáticas, integrada ao Fórum Mato-Grossense de Mudanças Climáticas, uma instância ativa de governança liderada pelo governo estadual.  

As forças-tarefa ajudarão a aprimorar ferramentas para guiar o desenvolvimento de projetos nos próximos meses. Os participantes também identificarão oportunidades de financiamento e as transformarão em carteiras de projetos climáticos, a serem apresentadas para financiadores em potencial. 

Com os olhos do mundo voltados para o Brasil e a expectativa de que a COP30 seja bem-sucedida onde a COP29 falhou, é importante reconhecermos os líderes subnacionais como a força propulsora da ação climática. Eles são responsáveis por manter a sustentação da implementação climática. É essencial garantir que esses governos não sejam  esquecidos quando o assunto é o financiamento climático. Financiar estados, regiões, províncias e cidades é, acima de tudo, investir no futuro. 

 

Mobilising Green Investment in Brazilian States
Fotografia: Tarciso Augusto / SEMAS